what-are-french-friesO tio das melhores batatas fritas que o Bom Retiro já conheceu. Lá estava ele, fielmente ao lado da Fatec, dentro de sua van, vendendo as famosas batatinhas fritas. Não eram simples e comuns batatas. Recebiam o melhor tratamento: catchup, mostarda, queijo parmesão ralado, cheddar, maionese e palitinhos.

Sucesso garantido. Alunos da Fatec, trabalhadores que pegavam o metrô para irem embora, moradores do bairro, taxistas, todos eles paravam um minutinho na enorme fila para comprar o seu pacote grande, médio ou pequeno, à gosto do freguês.

O rapaz que fritava, temperava e vendia as batatinhas fritas era promissor. Além de esbanjar muita simpatia, fazia amizades facilmente e tinha uma visão para o futuro: torcar sua humilde van por uma lojinha maior. Dito e feito. Lá está a loja, na Rua Três Rios, Bom Retiro. As pessoas sentam nas calçadas, lotam o estabelecimento, se espremem para comprar seu pacote.

Curioso é o que o grande tio, o empreendedor, não dá as caras por ali. Será que está tentando ganhar outro ponto? Enquanto isso, sua mulher e filho cuidam do estabelecimento, esbanjando a mesma simpatia.

Numa conversa aqui e outra ali, eis que descubro o motivo do sumiço: depois que abriu o negócio o tio das batatinhas fritas juntou uma grana e fugiu para bem longe com uma menininha de 18 anos…

Ser gay num mundo moderno, de idéias liberais, onde praticamente tudo é liberado e aceito pela sociedade não parece grande coisa. Mas na prática a coisa não funciona bem assim. Para parte desses meninos e meninas com opções sexuais divergentes da maioria da população, ser gay é sustentar uma identidade dupla, onde em parte do seu tempo, com sua família e alguns outros conhecidos você precisa ser algo que não é sua verdade.

Isso acontece com E.S.L, 20 anos, morador da cidade de São Paulo. Quando tinha 18 anos se assumiu para seus amigos, dizia que antes não se aceitava. Após algum tempo, contando com o apoio e aceitação, passou a mudar seu jeito, a se permitir vestir, ouvir, freqüentar e principalmente se envolver com outros rapazes. Entretanto, diante de sua família nada mudará. Sabia que não seria facilmente aceito, e assim, passou a viver como um gay em determinados lugares e com determinadas pessoas, e continuou a ser o mesmo em outras situações, reprimindo o que sentia e o que era de verdade.

Ele leva uma vida normal, estuda e trabalha, e aos fins de semana, às vezes até mesmo em dias de semanas, freqüenta baladas voltadas ao público GLBT. Além da liberdade que encontra, e da identificação com outros gays que só querem se divertir, as músicas costumam ser um grande atrativo. E.S.L é um grande fã de Justin Timberlake, ídolo na comunidade gay, e de divas da música pop, que embalam danças e atitudes.Parada do Orgulho Gay com milhões de pessoas na Paulista

Apesar do preconceito ainda existente e visível, o cenário gay vem ganhando destaque. E. agradece por isso, é mais fácil só esconder a verdade de algumas pessoas do que de uma sociedade inteira. Além do grande espaço conquistado na mídia, existe uma variedade de produtos gays como as revistas Júnior, uma Capricho para gays, e a G Magazine, item obrigatório na lista de compras de E., que também é fã de seriados como o Queer as Folk. Além disso, E., assim como outros gays, possui um perfil no Manhunt, espécie de Orkut específico para eles.

Mas todos os produtos juntos não causariam o mesmo impacto que a Parada do Orgulho Gay, evento que acontece uma vez por ano, e em São Paulo ocorre na Av. Paulista. E.S.L ansiou por este evento, valeu ir embora da praia num domingo de manhã para poder curtir o evento que em sua última edição reuniu cerca de 5 milhões de pessoas, segundo organizadores.

E.S.L sonha em ter um filho e constituir uma família. Numa sociedade onde o preconceito, mesmo mascarado, está presente, mudar leis e convencer pessoas ainda é um fardo complicado. O que ele deseja, assim como outras pessoas que vivem situações semelhantes, é simplesmente ser aceito, sem precisar esconder sua opção sexual e nem o caminho que o leva a sua felicidade.

DSC00805O personagem da vez é da cidade de Santa Catarina.

Teve suas origens no Grande ABC, em Santo André. Foi para Joinville apenas a turismo, mas se encantou pela cidade. Se encantou não seria o suficiente. Se apaixonou pela cultura joinvilense, pelo povo joinvilense, pela calma joinvilense. Não foi difícil a escolha: fez suas malas lá em Santo André e voou direto para a cidade catarinense.

Deixou todo estresse da cidade grande e agitada para a calmaria de uma cidade que ainda carrega fortes laços culturais com seu passado e cuja tradição  ainda é viva e presente.

Hoje trabalha em um barco, com roteiros turísticos pela Baia da Babitonga. Na realidade, ele é o proprietário do barco e, juntamente com seus filhos, faz um trabalho de guia turístico. Com sua voz digna de locutor de rádio, conta as diversas “histórias que o povo conta”, anima os turistas, apresenta a bela cidade tão ofuscada ao lado da capital, Florianópolis.

Mas, mesmo com todo seu carisma e alegria para conduzir seu barco, ainda não consegue competir com o grande, famoso e caro Barco Príncipe.

Ainda assim, não perde o gingado e o bom ânimo, o que, definitivamente, atrairá aqueles que procuram animação e familiaridade.

taxistaEram Por volta das 15:00 quando entrei em seu táxi. Apesar de estar exausta da viagem, prestei atenção na conversa que tinha com o taxista.

De início, o motorista parecia um tanto antipático, mas conforme o tempo dentro da cabine foi passando, ele foi ficando mais espontâneo e comunicativo. Tão comunicativo que falou quase sua vida inteira.

Seu turno de trabalho começa por volta desse horário, 15:00, e vai até a madrugada, entre 2:00 e 3:00. A essa hora, seu o ponto de pico é a região da Vila Madalena, onde pega a garotada que fica pelos bares da região. Não é registrado, não possui seguro de vida, mas o seguro contra furto possui. Começou sua carreira a pouco tempo atrás, mas antes disso fez várias viagens de carro: até a Bahia, Fortaleza, Curitiba. Diz que “para ser taxista tem que gostar de dirigir”. E é o que ele fazia de melhor, dizia. Dentro de seu carro já levou mulher e filhinha.

Aliás, sua filhinha é peça rara. Ele diz que ela adora se jogar no chão. Inclusive, uma certa vez, ela estava brincando e um tempo depois ficou dura e imóvel no chão. Sua mulher fica deseperada. Ele, por sua vez, dá um chacoalhão na menina: “filha, filha!”. Ela abre os olhinhos e diz: “ai, pai…”. Isso mesmo, dormindo! Hoje, ela está com uma conjuntivite incomum, “diferente”, como ele diz, “todos os dias ela tem que ir no médico raspar o olho”. Fico com uma cara de horror. “Mas não é nada assim, é só tirar as pelinhas”, completa. Fico aliviada.

Conta também que tem pavor de assalto, de dar carona para alguém errado. Um companheiro da frota foi assaltado. “Tadinho, já tinha idade o senhor”, diz. Não bastasse roubar os míseros 50 reais da única corrida que havia feito, ainda o jogaram pra fora e passaram com o carro por da sua perna. Com outro ainda, os assaltantes foram maldosos, porque levaram os documentos do carro, mas deixaram o carro lá. “Sem documento, a gente não pode dirigir, porque se pegarem…”, diz. Ele teve a sorte de nunca ter sido assaltado, mas dá a dica: “tem um casal, o homem moreno e a mulher loira, assaltando os táxis. Já fico atento, né?”.

Falando em assalto, desabafa que também tem medo quando passa pela Cracolândia de madrugada, às 2:00. “Tem gente se drogando ainda”. Conta que sua irmã mora por ali junto com uma menina. O medo é grande para elas. “É menina, né? Sair por ai sozinha?”.

Em 30 minutos cheguei ao meu destino e o livro se fechou.

“Belinha, filha, não chora, você tem que levantar pra ir pra creche!” Era assim que Priscila tentava acordar a filha, de 4 anos, para fazê-la ir à aula na creche próxima de casa.

Muito cansada ainda da correria do dia anterior, a própria Priscila tem que lutar contra a fadiga e o sono acumulado e levantar às 6h para ir trabalhar. Ela mora em Cotia, município da Grande São Paulo, e é obrigada a levantar quase 3 horas antes de entrar no trabalho para conseguir chegar ao emprego no horário.

Bom, mas vamos falar um pouco mais sobre Priscila. Seu sobrenome é Mota, tem 24 anos e está em São Paulo há 6. Ela morou boa parte da vida na cidade de Sobral, distante cerca de 220km da capital do Ceará, Fortaleza.

Priscila veio para a capital paulista pelo mesmo motivo de muitos nordestinos: buscar um emprego melhor. Aqui, ela iniciou em 2007 os estudos acadêmicos, dentro do curso de administração.

Ela trabalha em uma empresa de representação comercial, que por sinal pertence a um tio seu, que já está em terras paulistas faz mais de 30 anos. Nela, é responsável pelo departamento de Recursos Humanos, vulgo RH.

Priscila se considera uma pessoa batalhadora, que sabe o que quer e conhece o caminho para alcançar seu alvo. Apesar da rotina cansativa, ela diz que toda essa “correria” vai valer a pena e que lhe renderá bons frutos no futuro. “Espero que (esse futuro) não esteja muito distante”, brinca.

No momento, ela está morando com uma tia – que aliás é irmã de seu “tio-patrão”- e mais alguns primos.

Já há alguns meses, Priscila não tem a felicidade de acordar junto à sua filha, Cibele. Ela teve de deixar Belinha (como a chama carinhosamente) na casa de sua mãe, em Sobral. “Foi muito doloroso, mas não havia outro jeito. Eu mal tinha tempo pra ficar com minha filha e sei que ela está melhor lá que aqui”, acrescenta.

Planos para o futuro? Sim, ela afirma ter muitos. Mas, “tudo no seu tempo”, resume.

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As cerca de 50 pessoas já o esperavam há quase meia hora, naquele pequeno auditório. Ficaram sabendo no começo da tarde que ele gostaria de falar com elas. Primeiro, se achava que receberiam sua visita, e logo correram a ajeitar um pouco as bagunçadas mesas de trabalho. Em seguida, veio a notícia que deveriam ir até ele. E lá estavam todos, alguns já esquecendo o que estavam aguardando.

De repente, ele entrou e desceu rápido os degraus e tomou posição de frente para a platéia, que se calou instantaneamente. E depois de um rápido e inaudível Boa Tarde, seguiram outras frases ditas rapidamente, que pareciam ser desculpas pelo atraso, mas que no fundo poderiam ser qualquer coisa para quem estava sentado da terceira fileira em diante. Em seguida, alguém lhe entregou um microfone, e agora todo o ambiente podia ouvir as palavras rápidas e metafóricas com que o presidente da companhia noticiava e explicava a troca de comando naquela unidade.

Depois, passou a palavra para o que estava indo para outra área, que discursou, agradeceu e foi aplaudido. Este passou a vez para o que estava chegando, que foi aplaudido após sua fala, e agradeceu.
Em seguida, os três se despediram dos presentes. O presidente tinha que ir para outro departamento da empresa, localizada do outro lado de São Paulo, para anunciar mais uma dança das cadeiras.

Lá, provavelmente, alguém estava sentado já há algum tempo, quase esquecendo o motivo de estar ali.

metro11Quase sete horas da noite. A linha azul do metrô está lotada, as pessoas estão se esforçando para arranjar seu espacinho naquele mundo tão pequeno. Está tudo um caos, mas ainda assim, duas moças conversam tranquilamente sobre suas vidas, seus trabalhos, seus homens.

A loirinha me surpreende, não por algo de especial, mas por ser tão comum. Tão comum que acaba expressando o pensamento de muitas pessoas.

Aproximadamente nos seus 20 anos de vida, relata seus momentos de nervoso nos transportes públicos.

“O pessoal quer que quer entrar no metrô, mesmo quando não tem mais espaço aqui”.

Conta que uma certa vez ela estava sentada no ônibus na cadeira comum, sem marcação de reserva. O ônibus estava cheio e uma senhora a cutucou e perguntou se ela poderia se levantar para dar lugar a ela. Instantaneamente, a loira olha para seu banco e pergunta: “por acaso esta cadeira é para idosos? Por que a senhora não pede lugar no espaço reservado?”. Sim, grosseria, mas muitas pessoas devem pensar o mesmo quando são incomodadas. Veja bem, muitas pessoas, não todas.

Outra vez, ela estava sentada e uma mulher com sua bolsa a cutucava constantemente. Educadamente ela se vira, cutuca a mulher e lhe diz: “com licença, moça. Você não está me vendo aqui não?”.

Sim, outra grosseria. Mas reitero o que disse, muitas pessoas pensam isso quando alguma bolsa enorme bate em suas cabeças, em um ônibus cheio.

Enfim, essa loirinha, invocada para uns, nada mais é do que uma porta-voz de muitos brasileiros que enfrentam o transporte público complicado de São Paulo.

Leia mais em: http://tempestivo.wordpress.com/2008/11/12/se-esse-banco-fosse-meu/

Depois de conversar por algumas vezes com alguém, João eventualmente acaba levando o assunto para um ponto que lhe interessa, e pergunta para seu interlocutor, como quem não quer nada: “Você tem livros em casa?”

Se a resposta for afirmativa, uma rápida sondagem pode identificar oportunidades de negócio. Os livros são do quê? Você já leu todos? Estão ocupando espaço? “Se quiser, posso vender eles pra você”.

Através de sua página no Mercado Livre, site que permite a qualquer interessado comercializar o que quiser pela Internet, João cadastrou mais de 500 produtos, a maioria CDs e livros. Ele já trabalhou numa rádio, que lhe forneceu um considerável acervo sonoro, com algumas raridades. João já ganhou 180 reais por um CD procurado por um colecionador. Antes de vender, ele sempre faz uma cópia das músicas do material que será entregue.

Livros de faculdade também vendem bem, segundo este morador da zona leste, de 34 anos: “Em especial os de Medicina”. Faltam alguns meses para a namorada de João fazer o Juramento de Hipócrates, assim como restam poucos volumes da bibliografia do curso na casa dela.

Um dia, ao voltar do correio, onde foi despachar os pedidos, embalados em plástico bolha e envelope pardo, chegou no seu quarto e foi cadastrar mais alguns produtos. Abriu o site, colocou seus dados, sua senha estava incorreta. Tentou novamente, mesmo problema. Achou melhor pedir para recuperar os dados de acesso, também não conseguiu. Procurou uma forma de contato com o site, só havia um formulário. A resposta padrão recebida não ajudou em nada.

Depois de mais algumas tentativas de comunicação frustradas, João resolveu desistir e recomeçar. Se inscreveu em outra página de comércio virtual e começou a cadastrar de novo todos os produtos e, mais importante, a construir sua imagem de vendedor confiável, baseada em qualificações positivas recebidas de seus compradores. “Isso é o mais difícil de recuperar, ninguém compra de quem não tem uma boa avaliação, uma imagem confiável”, conta.

Em duas semanas, João já tem duas qualificações positivas, o que lhe garante 100% de aprovação. “Negociação clara. Entrega rápida. Recomendo”, corrobora o comentário de uma cliente, estudante de Medicina. Para alguns familiares e amigos mais próximos, a pergunta mudou: “Se der, você poderia me qualificar hoje?”

 Fã de Playstation, apaixonado por música. Toca numa banda de rock, a The Same Old Morgue, nela é guitarrista. Este é Vitor Acácio, 20 anos, conhecido também com V. Vitor mora num bairro da Zona Norte, com sua família que ele afirma ser “meu porto seguro, meu esconderijo”.

Namorado da Beth, é inteligente, apesar de as vezes não entender de primeira tudo o que a gente quer dizer.  Possui espiríto revolucionário , sempre brigando e debatendo pelo que acredita, mas muitas vezes guardando para si confidências ressentimentos.

Em seu grupo de amigos sua fama é de atrasado e meio lerdo. Mas no fundo é um dos pilares, sempre comparecendo , buscando melhorias, agregando com os demais sua cultura, seus valores, suas opiniões..que são muitas. E como não poderia de ser, na intimidade com seus amigos, num momento descontraído, ele lança a mais modesta frase “sou músico, sou foda”.  Atitude perdoável, levando-se em conta o que havia sido ingerido momentos antes.

Trabalha no IBGE, vaga que conseguiu através de um concurso. Fala que tem muito trabalho externo, mas o pouco que ele faz do escritório ele afirma ser cansativo. Quando sair de lá pensa em prestrar outros concursos, a estabilidade e sua vida mole de funcionário concursado – passa o dia inteiro em casa conversando no msn – é o que ele busca manter.

dsc05113Ela mora no empreendimento arquitedo pelo governo: o Parque Residencial do Gato. Trabalha “carregando peso”, como ela diz, “com material de reciclagem”. Sua idade: 49 anos. A família, não quis comentar muito sobre, apenas que sua filha havia acabo de parir e seu marido sofria de dependêmcia química. Sua dor: uma perna quebrada.

Há cerca de três anos ela quebrou a perna. O motivo não foi revelado. Foi engessada e na mesma época, Carmen havia se candidatato a um emprego. Três dias depois foi chamada para trabalhar, e como a vida é difícil, cada oportunidade deve ser agarrada com as duas mãos, se não com o corpo inteiro. Corajosa, tirou ela mesma o gesso e foi trabalhar.

A dor ainda a persegue, apesar do tempo que se passou. Então, ela encontrou uma solução. Buscando a ajuda de um grupo que faz ação social no Parque do Gato, foi se tratar com a acupuntura. “Ah, melhorou muito!”, revela ela. Aquela sua filha que era uma recém mamãe também se tratou. Sua cesariana ainda recente estava lhe causando muitas dores abdominais.

O grupo vai ao local todos os domingos e tudo que eles utilizam, exceto os aparatos da acupuntura, são dos moradores do Parque: o café, as cadeiras, as toalhas de mesa.

Carmen hoje se considera mais saudável, mesmo com sua rotina cansativa. Uma alternativa não apenas medicinal, mas também uma saída para aqueles que não tem condições de pagar um tratamento, como é o caso da Carmen, do Parque Residencial do Gato.